A escola como espaço permanente de diálogo e resolução de conflitos

Benigna Villas Boas

Publicado em 17/10/2023

Uma das publicações do Jornal da Ciência, do dia 16/10/2023, trata dos desafios enfrentados por professores para lidar com ataques virtuais. Violências contra professores têm diferentes motivações, afirma o texto. É preciso considerar que os professores sempre foram o foco de atenção dos estudantes em relação aos conteúdos, complementa. Amplio este entendimento, por observar que o que mais os incomoda é a avaliação, ou melhor dizendo, as provas, cujo resultado garante ou não o “passar” de ano.

Segundo o professor Zuin, da Universidade Federal de São Carlos, no livro “Cyberbullying contra professores”, lançado em 2017, os alunos “projetam uma espécie de rivalidade entre dispositivos digitais e os professores”. Desde os primórdios das relações ensino-aprendizagem, o foco de atenção dos alunos têm sido os conteúdos. As várias metodologias usadas garantiam isso, “desde a via dialógica até a aplicação de punições físicas e psicológicas”. Mas, não é bem assim. Pesquisas revelam que a preocupação dos estudantes sempre foi e ainda é a avaliação, ou no dizer deles, são as provas, que existem desde a época jesuítica (século XVI), passando pelos exames propostos por Comênio (século XVII), que os desestabilizam e amedrontam, porque, não raramente, eles não sabem quais conteúdos “vão cair”. Vai ser fácil ou difícil, professor? Quando esta pergunta é feita, significa que o processo avaliativo não é discutido com os estudantes. A avaliação não é um processo planejado unicamente pelo professor. Quando o é, causa indignação, principalmente aqueles de anos mais avançados.

Telma Brito Rocha, da Universidade Federal da Bahia, citada na publicação, e autora do livro “Cyberbullying: ódio, violência virtual e profissão docente”, nos auxilia nessa análise: “sabemos que o professor sofre com uma série de violências cotidianas. Mas também é preciso entender como as agressões dos estudantes podem ser ressonâncias de práticas escolares”. Acrescento: principalmente das que resultam do processo avaliativo.

Refiro-me a processo avaliativo por ser um termo amplo, que engloba todas as formas de avaliação formal e informal. Sobre esta última, cabe destacar seu formato muitas vezes desencorajador e até mesmo agressivo, manifestado em direção a alguns estudantes.

Rocha entende que a violência vem muitas vezes do professor, que persegue determinados estudantes por causa de mal comportamento em sala de aula. Além disso, há casos de repressão em relação  a como o aluno se senta, fala, se veste, como deve se comportar. Entendo serem situações avaliativas que podem gerar revolta e até mesmo violência.  

Concluo afirmando que as reações hostis dos estudantes decorrem mais do processo avaliativo do que dos conteúdos ou saberes escolares. O que mais eles temem é o processo avaliativo classificatório e ameaçador. É necessário considerarmos que frequentam a escola para aprender, o que é facilitado por intervenções pedagógicas que potencializem suas conquistas e não as reprimam.