Minha história com Brasília

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Em 1959 pisei no solo avermelhado de Brasília pela primeira vez. Estava em Goiânia com meu pai, Francisco Luiz de Freitas, meu irmão Nilo e minha irmã Lúcia de Fátima, ainda bem pequena. Com meus tios Clélia de Freitas Capanema e José Xavier Capanema, que moravam em Goiânia, viemos visitar a terra prometida. Apenas construções. Hospedamo-nos na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. Somente ali havia hotéis e de madeira. Construções provisórias. Todo o comércio ali funcionava. Jantamos em um restaurante que servia vários tipos de carne. Quase todas as pessoas usavam calças jeans. A poeira era intensa em toda a cidade.

Difícil imaginar que Brasília se tornaria a cidade que temos hoje. Meu tio era seu grande entusiasta e recomendava às pessoas que investissem em imóveis aqui.

Andei a pé onde hoje é o Lago Paranoá. Era o mês de julho e o céu estava tremendamente azul. Não me lembro de ter tido a sensação de querer morar aqui um dia.

Em 1958 conclui o curso ginasial no Colégio Imaculada Conceição, em Belo Horizonte (BH). Em 1959 iniciei o curso clássico no Colégio Santa Maria, também em BH. Queria ser professora de línguas. Mas não me identifiquei com este curso.

Meus tios se mudaram para Brasília em 1960. A cidade foi inaugurada em 21 de abril deste ano e o Colégio da CASEB imediatamente entrou em funcionamento, oferecendo os cursos ginasial, científico e normal. Decidi, então, vir fazer o curso normal e morar com meus tios em um prédio chamado de JK (janela e kitnet), na superquadra 412 sul. Isso mesmo. Este nome não era uma homenagem a JK.

Desde o início de Brasília os professores têm sido desconsiderados. Enquanto outros profissionais transferidos do Rio de Janeiro, antiga capital do país, foram acomodados em apartamentos e casas maiores e com mais conforto, os docentes das escolas primárias e secundárias receberam moradias de condição inferior. Minha tia foi concursada, em 1959, para atuar no curso normal, e somente em 1961 recebeu uma casa na quadra 708 sul.

Iniciei o curso normal em 1960. Fui da primeira turma a fazer o curso inteiro aqui. Vim para cursar apenas o primeiro ano e, ao seu final, me transferir para um colégio em BH. A decisão de abandonar o curso clássico e iniciar o normal se deu depois de as aulas de 1960 estarem em andamento. Como aqui elas tiveram início em abril, surgiu a chance de eu vir fazer o primeiro ano do curso normal e retornar a BH. Porém, surgiu um impedimento: o currículo do primeiro ano era composto por unidades didáticas e não por disciplinas, o que inviabilizou minha transferência. Eu não podia imaginar que esse fato mudaria completamente minha vida.

Meus pais, a princípio, não queriam que eu aqui ficasse mais um ano, para cursá-lo no seu formato convencional, por disciplinas, mas não havia outro jeito. Somente assim eu poderia ser transferida para outra escola, em BH. Mas, um fato importante mudou o rumo da minha vida: em maio de 1961 conheci o professor de Matemática e Desenho, da CASEB, Márcio Villas Boas. Começamos a namorar e, no dia 31 de dezembro do mesmo ano, ficamos noivos. Meu pai sentenciou: casamento somente depois de concluído o curso.

Em 1962, quando a UnB foi criada, Márcio iniciou o curso de arquitetura. Foi do primeiro grupo de estudantes a concorrer ao vestibular.

Márcio morava no alojamento da CASEB e não havia perspectiva de outro tipo de moradia. No primeiro semestre de 1962, os professores que ali moravam planejaram cuidadosamente a invasão de casas do BNDS, nas quadras 712 e 713 sul. De maneira muito organizada, em uma madrugada, todo o grupo deixou o alojamento rumo às casas. Cada um dos professores sabia de antemão à qual se dirigiria. A ação tinha de ser rápida. Todos deveriam arrombar as portas das casas ao mesmo tempo, antes da chegada de policiais. Márcio dirigiu-se à da esquina interna do bloco voltado para a W4, da quadra 712.

A descida do grupo de madrugada, pela W4, parecia uma procissão, no escuro. Silêncio total. Cada um levava colchão e seus pertences para os primeiros momentos. Houve um detalhe interessante: minha tia Clélia era a diretora da CASEB. Como Márcio estava envolvido, ela ficou sabendo, sem comunicar a ninguém. Meu tio Juca (assim era conhecido na família) tinha uma Vemaguet, em que transportou pertences do Márcio e de alguns de seus colegas. Enquanto isso, minha tia e eu aguardávamos em casa.

Tudo transcorreu bem. A polícia determinou que os invasores não saíssem das casas. Quem a abandonasse não retornaria. Lá eles permaneceram até que houvesse uma decisão. O presidente da república, à época, era o João Goulart, que decidiu que as casas fossem destinadas aos professores. Exigiu que eles as deixassem para que fossem concluídas. E mais: determinou que cada um fosse transferido do alojamento da CASEB para um apartamento do Anexo do Hotel Brasília Pálace, até que os imóveis pudessem ser entregues.

Mesmo sem termos moradia, nos casamos no dia 12 de janeiro de 1963. Para nossa felicidade, ao retornarmos da viagem de lua de mel, duas semanas depois, nem chegamos a ir para o Anexo do Brasília Pálace. As casas tinham sido liberadas e, no mesmo dia, entramos na nossa.

Em fevereiro de 1963 fui contratada pela Fundação Educacional do Distrito Federal (FEDF) como professora horista, o que corresponde, hoje, à professora temporária. Em abril prestei concurso e fui contratada para o cargo efetivo de professora do ensino primário.

A primeira escola em que atuei foi a Escola-Classe 107 Sul, dirigida pela professora Lídia Díglio Cardoso, gaúcha, séria, competente, altamente respeitada pelos pais, estudantes, professores e gestores da Coordenação de Educação Primária da FEDF. Ao mesmo tempo, autoritária e amiga. Nunca se afastava da escola e contestava decisões superiores quando era necessário. Não se intimidava. Sua responsabilidade chegava ao ponto de adotar a seguinte prática: tínhamos de fazer planos de aula diários, em folha de papel almaço, pautado, em duas vias e à mão. Uma delas lhe era entregue na véspera, para que pudesse orientar o trabalho da professora eventual, que estava na escola para as substituições que surgissem. Assim ela poderia dar sequência ao trabalho da titular da turma. Naquela época era possível que as escolas tivessem uma professora que atendesse as emergências. Se fosse necessário, a própria Lídia assumia a turma. Os estudantes nunca deixavam de ter aulas.

Nesta escola, no ano de 1963, trabalhei com uma turma de 4ª série, na qual estava Nelson Piquet. Neste ano, em dezembro, nasceu Márcia, nossa primeira filha. Durante a gravidez, como não tínhamos carro e eu enjoava com cheiros fortes, ia andando da quadra 712 sul até à Escola Classe 107 Sul, na super quadra 107 sul. Saía de casa a pé, às 6h30,  seguia pela W3, andando devagar, parava na Igrejinha de Fátima, sentava e rezava, descansava da caminhada e ia até à escola. Fiz este trajeto até os 7 meses de gravidez, quando entrei em licença maternidade.  

Meu ginecologista era o Dr. Ítalo Nardelli. Uma de suas filhas, a Elizabeth, foi minha aluna na Escola Classe 107 Sul. Ele me atendia pelo serviço público de saúde, no Hospital Distrital (hoje Hospital de Base). Quando me internei para o nascimento da Márcia, Márcio o chamou para fazer o parto. Quando o procuramos para pagar seus honorários, ele nos disse: não posso fazer de graça o parto da professora da minha filha? Continuou sendo meu ginecologista até deixar de trabalhar. Por ocasião do parto da Isabela, nossa segunda filha, ele nos disse que não havia necessidade de comparecer porque o médico que estava de plantão era muito bom e que podíamos confiar. Dr. Nardelli foi muito querido por nós.

Nesta turma, meus estudantes tinham um caderno somente para eu indicar-lhes atividades individualizadas em atendimento a necessidades de aprendizagem que apresentassem. Deu muito certo. Durante as aulas, eu observava o trabalho de cada um deles. Quando notava que alguém ainda não havia aprendido algo, registrava uma explicação no caderno e solicitava que fizessem algumas atividades em casa. No dia seguinte eu recolhia os cadernos, analisava as respostas e, se ainda houvesse dificuldade, eu me sentava com o estudante, explicava novamente e outras exercícios eram inseridos no caderno. Não foi uma sistemática de trabalho aprendida no curso normal. Minha sensibilidade pedagógica é que me inspirou a não deixar nenhum dos meus estudantes para trás. Acho que foi o início pelo meu interesse pela avaliação.  

No ano seguinte, fui convidada para ser professora de Matemática e Ciências de uma turma de 6ª série primária, na Escola Classe 106 Sul. Segundo a Lei Educacional 4.024/61, esta turma equivalia à 1ª série ginasial. Atuei juntamente com a professora Nair Pacheco, encarregada de Português e Ciências Sociais. Nos dois anos seguintes, trabalhei com a mesma série na Escola Classe 108 Sul. Como o número de turmas desta série se estendeu a muitas escolas, a partir de 1967 passei a ser coordenadora das turmas de 6ª série no âmbito do DF. A coordenadora de Educação Primária da FEDF era a professora Ana Bernardes da Silveira Rocha.

Na primeira turma de 6ª série com a qual trabalhei, havia uma estudante com mais idade do que seus colegas que apresentava muitas dificuldades com as atividades de Matemática. Nos dias de prova ela ficava com as mãos geladas e não se saía bem. Tratei de conversar com ela para identificar o que acontecia. Percebi que era medo. Talvez tivesse passado por experiências desagradáveis. Sem anunciar-lhe, adotei a estratégia de entregar-lhe exercícios, durante as aulas, semelhantes aos que estariam em provas. Fiquei surpresa: ela conseguia acertar todos. Assim, comecei a discutir essa situação com ela, sempre após as aulas, somente entre nós. Após algum tempo, ela já não precisava fazer provas em momentos diferentes. Hoje percebo que não aprendi a resolver situações como esta no meu curso normal, que foi muito técnico.  

Brasília me proporcionou realização de estudos e crescimento profissional. Submeti-me ao primeiro vestibular do CEUB, para o Curso de Pedagogia, em 1968. Todos os cursos funcionavam à noite, no Colégio Maria Auxiliadora, na Asa Sul. Nesta época nossas duas filhas já eram nascidas. Trabalhava o dia todo e frequentava aulas à noite. Nos finais de semana, fazia leituras e desenvolvia as atividades do curso, sempre com o apoio do Márcio. Tínhamos apenas um carro. Para me buscar ao final das aulas, ele ia com as meninas já prontas para dormir, para que, chegando em casa, pudessem ir logo para a cama.

Logo após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 5692/71, o MEC ofereceu um curso de especialização sobre suas diretrizes, oferecendo duas vagas para cada unidade da federação. Fui designada como uma das representantes da FEDF.  

A partir daí, Márcio e eu começamos a organizar a continuidade dos nossos estudos.

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Durante a ditadura militar, deflagrada em 1964, o trabalho na UnB se tornou tumultuado. Márcio concluiu o curso de arquitetura em 1966. Enquanto se dedicava aos estudos, continuou dando aulas, à tarde e à noite. Suas aulas na UnB ocorriam diariamente, inclusive aos sábados, de 7 às 12h. Quando passou no vestibular, como dava aulas pela manhã e à tarde, teve de solicitar mudança de horário (e não dispensa). A pessoa responsável por examinar seu pedido (um dos diretores gerais da FEDF, não um funcionário) tentou demovê-lo da sua intenção dizendo não haver necessidade de fazer um curso de nível superior uma vez que já era docente. Estranho, não é?

Em 1968 Márcio iniciou a carreira de professor na UnB, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, como professor assistente, no período matutino. No vespertino, em lugar de atuar na Fundação Educacional do DF, transferiu-se para a Secretaria de Governo, como arquiteto. Em 1974, começou a se organizar para cursar mestrado nos Estados Unidos. A luta foi grande. Não era comum um professor deixar o país com sua família para continuar estudos. Os empecilhos que se criavam eram inúmeros. Obter bolsa de estudo não era fácil. Havia um certo apadrinhamento político. Márcio sempre teve envolvimento político na UnB, era contrário à ditadura e às atitudes do reitor, José Carlos de Azevedo. Por isso, enfrentou problemas. Mas, não desistiu.

Conseguiu bolsa de estudos pela CAPES, que incluía o pagamento à Rice University, em Houston, Texas, uma bolsa mensal em dinheiro e passagens de ida e volta para ele e cada membro da família. O reitor da UnB não autorizou que recebesse seu salário enquanto estivesse estudando (na mesma época, colegas seus que também viajaram para programa de pós-graduação conservaram seus salários. Tinham bom relacionamento com o reitor).

Às vésperas de viajarmos, depois de termos alugado nossa casa, colocado todos os nossos pertences em um guarda-móveis e de estarmos em casa de parentes, não conseguíamos receber nossas passagens porque o SNI (Serviço Nacional de Inteligência) não aprovava nossa saída do país. Foi tenso. Mas deu certo.  

Chegamos em Houston, Texas, no dia 15 de agosto de 1975. O setor da Rice University encarregado de receber os estudantes estrangeiros solicitou a um doutorando brasileiro, Dionísio, da Universidade Federal de São Carlos, que nos recebesse e, juntamente com sua família, nos ajudassem a nos instalarmos. Dionísio e Aurora, sua esposa, foram fundamentais nas providências iniciais: alugar apartamento, comprar carro, matricular as meninas em uma escola pública e fazer as primeiras compras. Dois anos depois fizemos o mesmo com um casal brasileiro que lá chegou.

Durante o ano de 1975 estudei inglês e fiz o Tofflel, exame exigido pelas universidades americanas para ingresso em cursos de pós-graduação. Em 1976, iniciei mestrado em Ensino, na University of Houston. O curso era destinado a professores em exercício e, por isso, tinha uma estrutura diferente. O currículo já estava todo definido. Havia as disciplinas que deveríamos cumprir em cada semestre. Ao final, não houve defesa de dissertação. Os estudantes americanos cumpriram estágio. Eu e um colega australiano elaboramos 5 projetos sobre temas escolhidos por nós e aprovados pelo nosso orientador, doutor Weber, que ministrou duas disciplinas do curso. Cumpridos determinados créditos, fizemos uma prova denominada “comprehension”, em que dissertamos sobre um tema.

Um fato do curso me marcou: doutor Weber nos convidou a fazermos uma prova na sua casa, nos arredores de Houston, que durou cerca de duas horas. Ele era muito próximo dos mestrandos. Concluí o mestrado em 1977.

Como Márcio tinha bolsa da CAPES, eu não tinha direito a ter a minha. Eram as regras da época. Apenas consegui que meu curso fosse pago por esta instituição. Marido e mulher não podiam receber bolsas ao mesmo tempo. Contudo, um casal brasileiro que lá fazia doutorado, cada um recebeu a sua, por não serem casados.

Em junho de 1978 retornamos ao Brasil. Com o mestrado concluído, Márcio já havia cumprido os créditos do doutorado. A Rice University lhe concedeu um ano para escrever a tese de doutorado e retornar para defendê-la. Foi o que fez.

Mesmo com o título de doutor, Márcio esperou alguns anos para que o reitor da UnB, José Carlos de Azevedo, autorizasse sua mudança de nível. Continuou recebendo o mesmo salário anterior aos cursos de mestrado e doutorado. Seus colegas que também haviam concluído estes cursos foram promovidos a níveis superiores. Esse era o tom da ditadura: as mesmas regras não eram para todos.  

Retornando dos Estados Unidos com o mestrado concluído, meu desejo era ser professora da Faculdade de Educação da UnB.

Mais uma luta deveria ser enfrentada.  

   

 

 

 

 

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