A sociedade e a produção acadêmica, um diálogo necessário

JC Notícias – 03/03/2023

Jornal da USP publica artigo de Hernan Chaimovich, professor emérito do Instituto de Química da universidade e ex-presidente do CNPq

As formas de estimar o impacto de publicações científicas e patentes são objetos de interesse nas academias e nas empresas. Publicações acadêmicas e patentes, por serem produtos de investimentos, públicos ou privados, estão cada dia mais sujeitas ao escrutínio das partes responsáveis pelo investimento.

Quanto às patentes, deve-se considerar que, conforme a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), em 2019, as empresas representaram a maioria dos pedidos de patentes em todo o mundo, com 66,8% de todos os pedidos. Os 33,2% restantes dos pedidos foram apresentados por universidades e instituições públicas de pesquisa (15,3%), pessoas físicas (12,8%) e entidades governamentais (5,1%). No caso das patentes, em geral depositadas por empresas privadas, a mensuração do impacto interessa às empresas. A extensa literatura que analisa o impacto das patentes considera um conjunto de indicadores. Alguns destes indicadores podem ser: a receita proveniente do licenciamento, o número de vezes que uma patente é citada por outras patentes ou publicações científicas, ou se uma invenção patenteada leva ao desenvolvimento de um produto ou serviço de sucesso que gera receita significativa.

Aferição do impacto da produção acadêmica apresenta características diversas, tanto pela natureza distinta dessas instituições quando a diversidade dos impactos dessa produção. Publicações acadêmicas, em sua imensa maioria provenientes de universidades de pesquisa, são em geral produtos de investimentos públicos oriundos dos impostos pagos por toda a sociedade. Até pouco tempo, universidades e agências financiadoras eram os únicos agentes a estimar o impacto das publicações. Crescentemente os contribuintes diretamente, os seus representantes ou a imprensa, começam a se interessar, e fazer cobranças, a respeito do investimento e do impacto da criação acadêmica representada pelas publicações. Esta ampliação do universo social que se interessa pelo investimento na universidade, que questiona a relevância e o impacto da produção acadêmica, tem aspectos extremadamente benéficos para o diálogo entre a academia e a sociedade e, simultaneamente, ameaças constantes à própria existência da universidade.

Neste artigo dedicarei pouco espaço para descrever as ameaças à universidade decorrentes do relativamente recente interesse social pela universidade, objeto que requer uma análise separada. Basta dizer, por ora, que os regimes neofascistas que se espalham no mundo se caracterizam por tentar (e às vezes conseguir) destruir a liberdade acadêmica das universidades. A liberdade acadêmica é um perigo para regimes neofascistas, pois permite criar conhecimento, muitas vezes crítico ao sistema, e formar pessoas que se permitem olhar a realidade, portanto, ter visões objetivas das realidades da sociedade onde vive.

Os aspectos benéficos do diálogo universidade-sociedade determinam uma abertura das universidades às realidades e necessidades da sociedade que as rodeia. Esta abertura requer desde a necessidade de relatar, numa linguagem adequada, o que é um novo conhecimento, e por que se cria, até a descoberta de novos caminhos de reflexão que tenham um maior e mais rápido impacto nos contribuintes que financiam os investimentos na universidade pública. Numa sociedade segmentada e desigual como a brasileira, os segmentos que pagam impostos têm interesses, linguagens, conceitos (e preconceitos), culturas, necessidades e características diferenciadas. As universidades de pesquisa têm a responsabilidade de estabelecer diálogos, também segmentados, para que a importância da criação intelectual da universidade chegue a todos os que a sustentam. Simultaneamente, estes diálogos podem fazer com que as necessidades sociais mais prementes estimulem a criatividade de pesquisadores produzindo soluções que as atendam.

É sempre conveniente definir impacto das publicações pois, quiçá repetindo a definição, se possa chegar a um consenso do seu significado. Destarte, é evidente (para mim, claro) que o impacto de uma publicação pode ter elementos econômicos, sociais ou intelectuais, ou ainda ter mais de um ingrediente.

O impacto econômico é o aspecto que tem sido mais estudado e divulgado. Um trabalho incremental publicado, ou uma sequência de publicações, pode criar ou fazer crescer uma empresa e consequentemente aumentar o nível de emprego. Outro trabalho pode ser suficientemente disruptivo como para criar um universo econômico. A mensuração desse impacto é, até hoje, um tema de investigação, pois a quantificação do impacto não é um fator de aferição fácil. Porém, é aceito, por exemplo, que os trabalhos publicados por Johanna Dobereiner, demonstrando a associação de bactérias com raízes de plantas, permitiram que o Brasil se tornasse um dos atores globais mais relevantes na produção de soja e derivados. Apesar dos muitos casos que demonstram a correlação, e muitas vezes a relação causal, de trabalhos publicados por pesquisadores das universidades brasileiras de pesquisa com o desenvolvimento econômico, e por decorrência o emprego, ainda é limitado o universo social onde estes resultados são conhecidos e, sobretudo, apreciados.

Os levantamentos de opinião sobre a visão da sociedade em relação à ciência, especialmente depois da pandemia, são sempre alentadores e positivos. Estes indicadores, por outro lado, também indicam que boa parte da população não identifica nem cientistas, nem universidades onde ciência é produzida. É evidente, também, que quando os investimentos em universidades e apoio à ciência são ameaçados, como durante o governo Bolsonaro, os segmentos sociais mais beneficiados pelas descobertas feitas no Brasil raramente se manifestaram. A formação de profissionais nas universidades de pesquisa para o desenvolvimento econômico é, simultaneamente, reconhecida e ignorada. Reconhecida, pois as pessoas formadas nessas universidades permitem que a economia, a saúde, a cultura, funcionem com profissionais bem formados. De forma simultânea, cada vez que se ataca a universidade, por razões diversas, o impacto econômico na formação de pessoal qualificado se ignora.

O impacto social da produção de ciência nas universidades é também significativo e raramente apreciado na sua dimensão. Este impacto se estende desde os avanços incorporados à medicina até a qualidade do atendimento no SUS. Os subsídios que publicações dão para a formulação de políticas públicas, bem como as intervenções sociais diretas das universidades, contribuem para aliviar o nível de violência e iniquidade desta nossa sociedade.

Discutir o impacto intelectual da pesquisa fundamental para um público não acadêmico requer um esforço consciente, pois não é suficiente mostrar, por exemplo, o número de citações de um trabalho e afirmar que a magnitude desse número reflete impacto. As funções de um celular inteligente são mágicas, para uma proporção imensa da sociedade, independente de condição econômica. Transformar esta concepção mágica num percurso intelectual, eivado de publicações acadêmicas, que durante muito tempo não passou de ciência fundamental, está claramente nas responsabilidades da universidade.

Esta reflexão requer foros adequados onde se construam mecanismos de comunicação social dependentes da área do conhecimento e do segmento da sociedade que se cogita atingir. As Pró-Reitorias bem poderiam tomar o desafio de construir canais diferenciados de comunicação social para estabelecer os caminhos bidirecionais com a sociedade. Um projeto destes seria um diálogo permanente onde tanto a produção intelectual da Universidade poderia ser compreendida, como as necessidades sociais passíveis de soluções acadêmicas seriam ouvidas. Um projeto integrado deste tamanho poderia contribuir para que a integração da universidade com a sociedade, com a sua imensa diversidade, fosse mais evidente. É claro que se trata de extensão, mas também de pesquisa e certamente de inclusão. Universidades de pesquisa como a USP contam com sistemas de comunicação que devem ser integrados num projeto desta magnitude. Trata-se, no fim, de uma iniciativa que pode conduzir a canais diferenciados onde possam dialogar desde a população das favelas até os membros da Febraban.

Jornal da USP