Mudando modelos mentais sobre avaliação – comece pelo porquê!

 

Mudando modelos mentais sobre avaliação – comece pelo porquê!

Este é o título de um esclarecedor artigo escrito por Isabela Villas Boas e publicado em Humanising Language Teaching, de agosto de 2019.

Na introdução, a autora explica a diferença entre avaliação somativa e formativa. Citando Coombe et al (2007), define a somativa como testes ou tarefas aplicadas ao final do curso para determinar se os estudantes alcançaram os objetivos previstos. Costumam decidir pela sua aprovação para outra série. Diferentemente, a formativa usa os resultados obtidos para melhorar o ensino. Por isso é realizada durante o processo de aprendizagem, quando o feedback é oferecido aos estudantes. Cita Jang (2014, p. 5), para quem “ a avaliação é uma atividade cujo propósito principal é pedagógico, isto é, auxiliar os professores a planejar o ensino e orientar a aprendizagem dos estudantes”.

Referindo-se à instituição onde atua, Isabela Villas Boas afirma que alguns desafios têm sido enfrentados no desenvolvimento da avaliação formativa. Os mais fáceis de serem contornados são os que envolvem a formação dos professores para praticarem o novo sistema avaliativo e os destinados a ajudar estudantes e pais a compreenderem como ele funciona. Os mais difíceis são os que requerem que pais e professores mudem os modelos mentais sobre avaliação, isto é, o “porquê”. Por que é tão difícil para as pessoas mudarem o modo de verem a avaliação? A autora recorre a Senge (2000) para explicar que nossos modelos mentais, isto é, nossas teorias sobre como o mundo funciona, influenciam nossas ações.

A partir dessas considerações, a autora discorre sobre três modelos mentais que nos afastam da mudança. O primeiro deles leva em conta que a maioria de nós, gestores, professores e pais, cresceu nos anos 80 ou 90 e não vivenciou a avaliação formativa em sua trajetória educacional. A nossa tendência é acreditar que o modo como fomos criados e as experiências pelas quais passamos constituem o que é certo. Esta é uma das razões pelas quais é tão difícil implementar mudanças na educação, assevera a autora.

Como segundo modelo, Isabela Villas Boas entende que confundimos testes estandardizados e de alto impacto com a avaliação desenvolvida em sala de aula. O fato de esses exames serem realizados, geralmente, ao final de um ciclo de estudos faz as pessoas acreditarem que eles ditam a maneira de a avaliação ser conduzida em sala de aula. Assim, os testes de sala de aula são vistos como preparatórios para os estandardizados e, por causa disso, devem neles se espelhar.

O terceiro modelo refere-se à crença de que os estudantes devem ser ranqueados e que, se todos obtiverem a nota máxima, o processo avaliativo não está correto. Se o sistema meritocrático prevalece, diz a autora, o papel da avaliação é ranquear os estudantes de modo que os que se localizam no topo tenham acesso a certas oportunidades exclusivas. A partir dessa visão de mundo, os testes devem discriminar os estudantes de alto, médio e baixo desempenho. Como se percebe, essa visão da avaliação é excludente e injusta.

O quarto modelo valoriza a nota: se ela não for usada, não sabemos realmente como o estudante está se saindo.

Concluindo, a autora afirma que modelos mentais tradicionais nos impedem de adotar avaliação centrada no estudante. A mudança desse cenário tem início com a compreensão de que eles estão superados, são discriminatórios e excludentes. Somente depois disso é possível focalizar o “como” desenvolver a avaliação formativa e construir os meios para isso. A autora defende a avaliação como aprendizagem e sem notas.

A grande contribuição do texto aqui resumido reside na formulação de que nada muda se os avaliadores não souberem porque avaliam. As práticas avaliativas decorrem dessa compreensão. A proposta da autora vai ao encontro do entendimento de Hadji (2001, p. 20), para quem “é a intenção dominante do avaliador que torna a avaliação formativa”. Ele sabe porque avalia.

Referências

COOMBE, C., FOLSE, K., and HUBLEY, N. A practical guide to assessing English language learners. Ann Harbor, Michigan: The University of Michigan Press, 2007.

HADJI, Charles. Avaliação desmistificada. ArtMed: Porto Alegre, 2001.

JANG, E. E. Focus on assessment. Oxford: Oxford University Press, 2014.

SENGE, P.M. Shools that learn: a fifth discipline fieldbook for educators, parents, and every one wh ocares about education (1st Currency pbk. Ed.). New York: Doubleday, 2000.

 

 

Para ler o texto na íntegra

https://www.hltmag.co.uk/aug19/changing-mental-models?fbclid=IwAR34p4VIWtpi1-U9qBR_v37SKJ0O4BsfDTwKue1l6E7sq8Ah9yzAtncNo7U